ASBRAM discute nova nutrição da Pecuária Brasil

Segmento vive mudanças sem parar, nutre os rebanhos, produz, abate e exporta mais

17.09.2026 — Asbram — Reunião Mensal Goiania
Fotógrafa: Kika Damasceno – kikadamasceno.com.br

Quase 68,5 milhões de bovinos usaram suplementação mineral no Brasil de janeiro a agosto deste ano, 1,9% a mais do que no ano passado. As vendas de suplementos caíram 8,8% em agosto, mas a performance em oito meses quase empata com 2025, com 1,62 milhão de toneladas, apenas 1,1% abaixo. Os dados integram o Painel de Comercialização da Associação Brasileira das Indústrias de Suplementos Minerais (ASBRAM), divulgado no mês passado, em Goiânia, durante a oitava reunião com associados da entidade.

O encontro teve a participação de quase cem profissionais e também prognosticou como devem se comportar os negócios até o fim deste ano. O cenário base aponta para a comercialização de 2,23 milhões de toneladas, enquanto o panorama mais otimista indica 2,38 milhões de toneladas. “Os dois números são negativos, mas não podemos esquecer que a base de comparação é com um número bem mais robusto, obtido em 2025. E ainda vivemos muitos problemas, no mercado internacional do petróleo, o mundo operando com taxas de juros mais altas e a economia brasileira desacelerando. Por isso é cada vez mais importante olharmos com lupa para sabermos como estão as escolhas dos pecuaristas pelos diferentes suplementos, como núcleos, proteicos e proteico-energéticos”, analisou Felippe Serigati, cientista econômico, professor da FGV Agro e coordenador do Painel.  

A visão foi reforçada pelo Especialista e CEO da Athenagro e palestrante convidado Maurício Palma Nogueira, que analisa com frequência o mercado nacional e internacional da pecuária para a Associação. “Ninguém melhor do que vocês da indústria para se aproximar ainda mais dos criadores e ajudá-los a entender a importância da combinação de um pasto de qualidade e o uso de minerais para aumentar a eficiência da produção de carne e leite. É necessária muita atenção aos sistemas de produção. A atividade está mudando demais, trazendo variáveis novas à dinâmica do ciclo pecuário. Até mesmo com a inteligência artificial nas fazendas”, observou.

Maurício também reforçou que as alternativas para a alimentação dos animais vêm crescendo, como é o caso do DDG e do sorgo, o que muda o padrão de consumo. “A saída pode ser alterar a linha de produtos, ter essa abordagem com cada um dos produtores. Temos 22 milhões de cabeças comendo mais de 1% de concentrado na dieta de terminação. 10,5 milhões no confinamento. 1,7 milhão de TIP (Terminação Intensiva no Pasto) com 2% do Peso Vivo. 9,92 milhões com TIP de 1% a 1,55% de Peso Vivo. Suplementação à pasto 0,3% a 1% do PV com 7,72 milhões. De 0,1% a 3% do PV são 7,16 milhões.  No pasto e com linha branca 10,09 milhões. E a realidade vem melhorando. Porém, o manejo do pasto bem realizado vai elevar o consumo de concentrados. E é preciso saber que as tendências exigem tomarmos as melhores decisões”, contextualizou.

O especialista ainda reconheceu que a pecuária vive, sim, uma fase estranha e que a cadeia tem o dever de entender as mudanças. “Tivemos um primeiro semestre com abate em alta recorde. E produção também. Com peso médio de carcaça maior do que o ano passado. Em julho, o abate caiu. Vemos claramente uma nova velocidade no sistema de produção. O abate de fêmeas ainda está alto. Mas vem caindo e o descarte é técnico. O mercado está extremamente volátil. E o abate ficando cada vez mais formal’, detalhou.

E mais. As margens estão ficando mais difíceis para produtor e frigorífico. “É normal. E essa realidade vai demandar mais da indústria de nutrição porque o pecuarista terá que melhorar a gestão da fazenda. E a tolerância com pasto degradado vai ter que mudar. E o pacote nutricional melhorar. Tem gente que está mudando e variando a dieta, porém sem embasamento técnico suficiente. É a mensagem que a indústria da nutrição precisa levar para os cochos. Até porque a nutrição deveria estar crescendo bem mais”, advertiu.

No front externo, as variáveis na mesa são a integralidade da Cota China ter chegado, como era esperado. A Europa fechou mercados para países como o Brasil, como havia alertado com antecedência. “São barreiras mais pesadas e, infelizmente, o Brasil foi o último a se mover. Mas não é novidade para o mundo. São medidas que trazem mais responsabilidade e profissionalismo ao mercado”, opinou Danilo Grandini, Diretor Técnico Global de Ruminantes da Phibro Saúde Animal, que participou da reunião e ilustrou a visão da empresa sobre a molécula Virginiamicina, usada por doze milhões de animais no mundo, comercializada nos Estados Unidos pela Elanco como promotora de eficiência alimentar e utilizada no mundo inteiro como terapêutico para tratar de acidose em bovinos de corte e leite.

“Tentamos registrar como terapêutico no Brasil desde 2017. E imaginamos que isso possa ocorrer até o início do ano que vem”, completou. “Agora, somos gente grande no mercado internacional. E gente grande precisa ter mais responsabilidade. Precisamos de conversas mais íntimas e frequentes com o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), para ficarmos atualizados e orientar os parceiros”, alertou Elizabeth Chagas, Vice-Presidente Executiva da Asbram.

Por outro lado, a carne bovina brasileira segue avançando em novos mercados, como Coreia do Sul e Japão abrindo, mesmo sendo em cortes menos valorizados. As exportações caíram, mas embarcamos mais para os EUA e a proteína segue valorizada no mercado brasileiro em relação a frango e suíno. “O preço do boi está favorável. A produção de bezerros é estável, com 52,5 milhões de cabeças. Temos mais de 80 milhões de vacas e elas estão melhorando o desfrute. Está abaixo do que se queria e por isso a carne está cara ao consumidor. Mas o resultado da cria é crescente e o cenário é positivo até 2028. A pecuária está serena diante de tanta barbaridade que está ocorrendo no Brasil e no mundo”, concluiu Maurício Palma.

A reunião da ASBRAM também abordou outro ponto importante para as empresas do setor nos próximos anos. A entrada em vigor pleno da Reforma Tributária, a partir de janeiro de 2027. “A reforma é uma nova maneira de fazer negócios no país. Todas as regras foram profundamente alteradas. Vieram para melhorar o ambiente de negócios, mas a situação vai piorar antes. Serão seis anos de transição e vai interferir diretamente na precificação dos produtos das indústrias. Vão acabar os benefícios tributários e os primeiros problemas começam já no ano que vem, por causa do fechamento de negócios realizados neste ano e lançados no futuro, como o estoque de PIS Cofins para restituição até julho do ano que vem. A operação econômica vai ‘colar’ na operação tributária. Com a tecnologia. Precisa contar a mesma história para a Receita Federal. Vocês vão ter que olhar para fornecedores e compradores. O novo sistema liga o pagamento ao creditamento e não à emissão da nota fiscal. Pelo menos, o tributo fica mais claro, transparente’, orientou Talita Felix, professora e advogada, convidada a falar sobre tributação no setor de suplementos minerais.

O encontro ainda trouxe a apresentação da empresa AB VISTA, grupo familiar inglês com mais de um século, faturamento de US$ 25 bilhões ao ano, presente em mais de 60 países e associado à ASBRAM há uma década. “Temos clientes em mais de 100 nações, oferecendo a outras empresas aditivos alimentares para nutrição animal, como levedura, enzima, extrato, betaína, exames, análises e diagnósticos”, reforçou Nelson Ferreira, zootecnista e gerente de Ruminantes para a América do Sul.

Destacou a chegada da Inpasa Brasil, novo filiado à entidade. “Temos hoje 14 tipos de Dried Distillers Grains ( DDG – Grãos Secos de Destilaria) registrados no MAPA. O que faz da usina a maior empresa de etanol do mundo”, resumiu o Coordenador Comercial Antonio Glauton.

E convocou novamente todos os 101 associados a participarem com conteúdo para o livro que vai contar a história dos trinta anos da ASBRAM, com lançamento marcado para o Simpósio organizado pela entidade no ano que vem, em Campinas (SP). “É uma história muito bonita e com um significado importante para o patamar que a nossa pecuária atingiu em várias décadas. Todos merecem conhecer essa jornada tão rica de tantos profissionais e empresas”, conclamou Elizabeth Chagas.

Fotos da Reunião por Kika Damasceno

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